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Sobre materiais e singularidades formais em Edgar Racy

Ana Avelar

Edgar Racy maneja como material para o trabalho artístico os resíduos resultantes da produção industrial, tocando um assunto deveras incômodo em tempos de revisão do padrão de consumo contemporâneo. Racy emprega seu olhar interessado pela forma para metamorfosear o material, em outras palavras, trata-se de um artista que lança mão da inteligência formal para subverter essa mesma inteligência ao utilizar nessa operação sobras apropriadas do descarte.

Sua compreensão da beleza passa por um olhar que desloca e, frequentemente, descasca o objeto primeiro, revelando sua estrutura. Os objetos finais são elegantes, às vezes complexos formalmente, algo curioso quando nos damos conta de onde provêm e de sua funcionalidade anterior.  
Nos bidimensionais, a operação é semelhante: um jogo surge ao descobrirmos os materiais que cobrem as telas, todos restos da vida cotidiana nos centros urbanos. Nossos rastros de civilizados. Sem as fichas técnicas, é difícil perceber que as telas estão cobertas de estilhaços de vidros de garrafas, pequenos pedaços de papel jornal, serragem, fragmentos de uniformes e cobertores, louças, telhas, tijolos, bitucas de cigarros, reduzidos até que fiquem descaracterizados e adquiram um aspecto sedutor, conferido pela cor, textura ou forma. Em alguns bidimensionais, a linguagem enxuta aparece nas palavras que podem configurar metáforas ou conferir sentido ao material. Surgem aí retratos e paisagens. Se os objetos conversam com a escultura moderna e contemporânea, os bidimensionais tecem relações com os lugares do debate pictórico.

Nesses anos, Racy manteve-se atento ao percurso artístico que se propôs ao coletar incessantemente tais materiais e acumulá-los em casa. Ao rearranjá-los, num movimento sutil e minimalista, o artista diz de nossas atividades cotidianas, de quem somos na cidade de hoje. Ao mesmo tempo, são trabalhos que em vez de discutirem o efêmero, buscam o permanente, falam da memória que habita nos objetos e o quanto eles próprios nos falam sobre o mundo que nos circunda (e que criamos). O ambiente da mostra de Racy é aquele de seu ateliê, com peças dispostas de maneira a salientar sua singularidade formal. Entretanto, são mais do que o poder de seu estímulo visual, pois percebemos que nelas há algo de estranhamente familiar.



Agnaldo Farias

Curador e crítico de arte

Edgar Racy trabalha com um material que é o elogio da transparência e fragilidade: o vidro. Desde o começo ele explora essa película diáfana, quase invisível que, no entanto, tanto veda o trânsito do corpo quanto faculta a passagem do olhar. Quanto a este, não se furta de um flerte com essa matéria gêmea: por ser aéreo, regozija-se deslizando por sua superfície, trespassando-o refratando-se, ou rebate-se em reflexos. Racy tensiona o material, submete-o ao seu próprio peso, e vai retirando como resultado as infinitas nuances através das quais esse corpo etéreo faz-se presente.
Mas, não é somente do corpo do material que suas obras tratam, e por isso a força da pesquisa. Afinal, a fragilidade do vidro implica em perigo para nosso próprio corpo. Do centro da sua beleza plácida irradia sua possibilidade de uma violência súbita, feitas de estilhaços e fagulhas microscópicas, capazes de reagir ao menor desafio.

Por isso cercamo-nos de tantos cuidados na contemplação dos seus trabalhos. Nosso rodeio receoso decorre da projeção virtual desse material: uma clareira feita de vazio e medo.



Museu Theodoro de Bona

Curitiba PR


Sobre o aspecto da utilização nas artes plásticas de materiais rejeitados na indústria, Edgar Racy os utiliza na sua produção artística. Usando mistura de várias ceras utilizadas na fundição de armamentos bélicos, constrói peças que exprimem o oposto ao que o material inicialmente teve como propósito,
Partes de armamentos bélicos reproduzidos inicialmente em cera matriz e em seguida substituídas pelo metal, se transformam em blocos de cera, coincidentemente da cor verde exército. A partir daí, utilizando a cor vermelha sobre a superfície verde, exprime fatos sobre o assunto, enfocando geralmente o oposto ao que o material teve como função inicial.
Algumas vezes, utiliza o próprio material para produzir palavras ou letras em forma de protesto, outras vezes produz peças que protegem o expectador ou simbolizam o efeito causado pela produção Bélica.








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